quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Lajeadenses - "Da tradição e imortalidade"

« Statistiquement, le mythe est à droite. Là, il est essentiel : bien nourri, luisant, expansif, bavard. »
Roland Barthes

« Est-ce qu’au fond, ce qui fait peur, dans la doctrine que je vais essayer de vous exposer, ce n’est pas le fait qu’elle laisse une possibilité de choix à l’homme ? »
Jean-Paul Sartre


Victor acordou com a fumaça de churrasco. Sonhava já com a picanha bem passada e a farofa. Também dançava no sonho, e logo que retomou os sentidos pensou no quão sem tradição era o misto de dança e degustação que sua mente fazia. O pai acabara de sintonizar a rádio, lá no carro sob a sombra das árvores do quintal. O churrasco de domingo estava com todos os signos em andamento.
Victor era alguém, era de tradição.
A lição vinha de longe. Do bisavô pobre até seu pai, pouca coisa mudara. O velho sempre dizia que não tivera escolha, que a vida é amarga e que tudo só pode ser realizado com muito trabalho. Victor jamais esqueceria: um homem deve ter honra, e a única forma de a alcançar é através de mãos calejadas e muito suor. Essa era a verdadeira natureza do homem. O pai repetia o discurso a cada churrasco, e jamais se esgotava a lágrima no momento da metáfora do guerreiro. Sua realização de vida consistia na tranquilidade em poder empregar para cada membro da família a qualidade de guerreiro. “O meu filho é um guerreiro” ; “Minha esposa é uma guerreira” ; “Meu irmão, guerreiro”. Assim também era quando todos, em frente à televisão, reconheciam outros guerreiros espalhados pelo mundo.
Victor era alguém, era de tradição.
Jamais lhe deixava a lembrança os primeiros jogos do Grêmio que vira ao lado do pai. Gritava sem entender muito bem o que acontecia, só sabia que gol tinha relação com felicidade e rodopios na frente da televisão. Seu velho o pegava pelos braços e ambos acabavam tontos de tanto comemorar. No decorrer do tempo, foi concebendo os valores. Assim, sempre fora apaixonado pelo tricolor. O azul, o branco, o preto, aquela camisa que tanto pesava, assim como a palavra tradição. Grêmio. Bombacha. Churrasco. Chimarrão. Honra. Trabalho. Tradição. Guerreiro.
Victor era alguém, era de tradição.
Antes daquele domingo já vivera a emoção do primeiro emprego, da primeira carteira assinada. O sorriso da Universidade, o aperto de mão para os negócios. Tinha seu próprio carro e sua bela namorada, que nos churrascos com amigos ficavam sob a sombra junto das amigas em cadeiras de praia, os pares de pernas depiladas e cruzadas na mesma direção, variando as cores das sandálias, preparando a salada. Sua mãe, nos churrascos de família, repetia a organização ao lado das tias e do carro.
Victor era alguém, era de tradição.
Só não compreendia uma coisa na vida: como era possível ser colorado? Não lhe fazia mesmo sentido. Sport Club Internacional, um time sem tradição, sem identidade, que mal havia conquistado títulos importantes. Victor não deixava de considerar os fatos de 2006 e 2010 como “o fim do mundo, a ordem natural das coisas alterada”. Colorados eram uma torcida sem unidade, sem relação alguma com as tradições de seu Estado, e que vivia imitando seu time. A famosa macacada. Cada vez que via um grupo de colorados, imaginava-os pulando e gritando sem entenderem quem eram, sem entenderem o real amor por um time. Mesmo quando o Grêmio caíra para a série B do Campeonato Brasileiro, a tradição manteve-se forte. Sendo gremista, jamais alguém poderia estar aflito.
Victor era alguém, era de tradição.
Aquele domingo era dia de Gre-Nal. Victor foi acompanhar o jogo num bar logicamente repleto de gremistas. Porém, seu time veio a ser derrotado. Ouviam-se discretos foguetes pelos céus de Lajeado, que os gremistas facilmente amorteceram. A macacada fazia festa, mas a tradicional torcida imortal não se deixou intimidar e gritou mais alto. Eis que, em determinado momento, um colorado que passava sorridente pela rua com sua bandeira se deteve em frente ao bar. Permaneceu um tempo em silêncio, acompanhando a intensificação dos cantos gremistas com sua presença. Viam que desejava falar algo, mas não consideraram escutar. Então o colorado sacou um guardanapo e, gesticulando, pediu um lápis para o dono do bar. Victor estava na mesa logo perto da entrada e chamou o rival. Queria ler o bilhete. De imediato, fez-se silêncio. Victor leu em voz alta:

Ser Colorado é realmente não temer, pois questiona-se o mito.

O silêncio seguiu por um instante. E todos riram efusivamente, a gargalhada fez-se uníssona, estridente, tão intensa quanto as canções entoadas anteriormente. A excentricidade do colorado acabara por o ridicularizar em um ambiente tão discrepante. “Ninguém entende nada! Ninguém entende nada que a macacada fala! Ninguém entende como alguém pode ser colorado!”, gritou Victor, já eleito como o líder do bar. Seguiram-no em gargalhadas novamente, inclusive o dono do estabelecimento, que até então operava o caixa de sorriso contido. Nenhuma pessoa ali pôde escutar, mas o colorado ainda falou em voz baixa: “Eis a diferença. Nós entendemos por que um gremista é gremista”, e foi embora sorrindo, satisfeito com a vitória do dia.
Até horas mais tarde, os gremistas continuaram firmes em seu bar, compartilhando a certeza de serem alguém, de serem de tradição.

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