segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Green Day no Gigantinho 2010

Era assim: gostar de socos em cordas. Aos 12 ou 13 anos aderi à distorção rápida e socada. Billie Joe Armstrong, ao invés de optar pela tradição Ramone de socar sempre pra baixo, alternava, digamos, diretos de cima com ganchos vindos de baixo. Porém o mais delimitador do estilo é seu aproveitamento de uma pegada flamenca de um outro gênio chamado Pete Townshend, e aí jogando o imprevisível soco de cima quando o ritmo pede um gancho de baixo. Desde a primeira vez que vi e ouvi tal agilidade comendo as cordas daquela Stratocaster adesivada, uma das pioneiras do costume nos finais dos 80, aliada às caretas cheias de agonia que borbulhavam na tela da clássica MTV dos anos 90, moldadas por cabelos coloridos e um rosto jovem de dentes tortos, entendi o que era o feeling pra mim. Não pude evitar. Arranjos brotados no so far west americano, de uma vida menos dura que na metrópole NY. Era uma raiva melódica, subtraído o leather e o noir, menos 70´s, porém mais 80´s no grave, além do teor latino e quente de uma cidadezinha pros lados do Pacífico.
"Billie Joe" hoje pode soar mal e provocar certo desdém num público apreciador de outra estética, distante das conotações adolescentes com a certa previsibilidade martelada nesse nome teen. Mas há o lado caipira e Rock'n Roll, o garoto Billie, que encheu os dois primeiros álbuns do Green Day de solos à la Johnny B. Goode, letras românticas - consideradas por muitos a melhor fase lírica da banda -, tudo marcado pela meia-lua que não largava a máquina de cimbal de Al Sobrante, depois de Tré Cool, aquele que ensina a quebrar frente à bateria de timbres crus e agudos microfonada pela Lookout! Records. Mike Dirnt, o tímido baixista com a cara e todo o resto de baixista, amigo de infância de Armstrong, preenche a banda por cordas grossas repletas de exclamações divertidas e genialmente sintonizadas com a guitarra e a bateria, além dos perfeitos backing-vocais que viriam desafiar todas as bandas a executar com perfeição os covers dos vários hits do Green Day.
Essa banda foi meu primeiro amor musical, e o mais duradouro. Dialogou com toda minha juventude e ainda foi deles que eu peguei a noção de compasso, a maneira de sentir e pular na rede do som quando se toca. Além disso, se algo de ruim ou bom se desse comigo, eu ouvia Green Day. Muitos air guitars e air drums afetivos. Meus primeiros "foras" acabavam embalados pela obsessão e o pessimismo nerd, tosco, mas sempre melódico daquele CD com a chuva de merda, do encarte repleto de ilustrações afetadas. Não me pesou a morte de Kurt Cobain porque eu definitivamente aprecio mais cores na paleta, além de jamais ter me identificado com uma tradição headbanger. Blur ou Oasis nem entraram na discussão. Enfim, eu tava só pela condução cortando o ar em velocidade. Não há como bater cabeça assim. Só socar.
Ainda tenho uma fita VHS gasta, com alguns shows que peguei sofregamente na programação da MTV, geração bem anterior ao Youtube, quando também me definia na parte anti boy-bands do público. Tenho a lembrança do primeiro CD adquirido, óbvio para um fã brasileiro dos anos 90: o já referido Dookie, que representa o início da banda com a Reprise Records. Pouco depois é que descobri a fase Lookout!, e me apaixonei de vez. Uma bela relação, desde eu sem acnes, gordo e alegre, até um cabeludo que ficou magro, começou a gostar de ler, passou a ter barba e iniciou uma faculdade de Letras quando já superada a adolescência, entrando numa fase de novas inseguranças onde escutar Green Day não seria alento ou fonte inspiradora, mas apenas nostalgia. Apenas?

2010, anunciado um show do Green Day em Porto Alegre. A notícia mais sonhada por mim lá pelos 1999. A impressão é sempre aquela de não fazer tanto tempo assim. De poucas coisas terem mudado. Num lado, o que se vê é a clareza do que se era, enquanto noutro está o vago e abstrato presente. Aproveitei a identidade esfumaçada do agora e reencontrei meu amor pelos melódicos e enérgicos californianos. Assim fui pro show.





No final de tudo, não importam muito novas descobertas, buscas por formas de se expressar e até mesmo os outros ídolos, surgidos posteriormente, mas bem pulsantes. O negócio é que eu perdi a virgindade no Rock com o Green Day. Muitos podem se orgulhar de terem descabaçado com ícones mais clássicos da música. Também existem uns que não revelam com quem realmente foi a primeira vez, tateando nas enciclopédias um bom representante. Pra mim, não importa nada. Depois de toda emoção que vivi no show do Green Day ocorrido no Gigantinho - acrescentando por ser a casa do Colorado de Porto Alegre -, não há o que reprimir. All we need is love. C'est l'amour. Sou filho inevitável de uma só geração e consegui ver meus eternos ídolos, os responsáveis pelas primeiras injeções de feeling e a consequente inquietação musical em mim.

Que venha ou que eu encontre o próximo show do meu jovem Green Day.



(Foto pelo site oficial da banda)

1 comentando:

A wild blumen disse...

Nossa, véio, que texto chique! Devia figurar numa revista especializada se elas não fossem uma fraude.Fiquei até com vergonha do meu!