sexta-feira, 24 de setembro de 2010

The Toy Dolls no Opinião 2010


Ainda no dia 24 de setembro escrevo com prazer o desenho das primeiras horas, ou a primeira hora, dessa data inesquecível. De acordo com o vídeo tosco do meu pobre celular, era ainda fim do dia 23 quando Olga, líder do Toy Dolls, subia ao palco acompanhado de Mr. Duncan, Tommy, mais os gritos frenéticos e meio desorientados do público presente no Opinião.
Pelas 20:30 do dia 23 saí de casa, na João Pessoa, abaixo de chuva - mas não uma chuvinha nas costas, porque o negócio na José do Patrocínio seria old school. Figuras carimbadas da lendária Oswaldo Aranha dos anos 80 e 90 estavam ali, debaixo dos toldos nas proximidades do Opinião, rememorando a última vinda do Toy Dolls pra Porto Alegre, matando o tempo e bebendo a umidade da noite fora da casa, até que a banda de abertura deixasse o palco. Preservar os ouvidos e deixar a memória virgem pro show sempre matador de uma banda veterana que se mantém sem intervalos, sem paradas pra buscar fôlego em sua trajetória de 30 anos. Toy Dolls vem sempre viva, puntualmente sarcástica, e Olga eternamente em seus vinte anos de idade, na aparência e disposição física. Se novas gerações foram apresentadas ao som desses britânicos de forte slang, podem ver hoje o que é tranquilamente a mesma banda e sentir o mesmo soco no estômago que ela mandava nos anos 80. O show do Toy Dolls é atemporal. E o timbre da mitológica Telecaster amarela de Olga só melhora.
Tive diversos momentos aerados durante o show. Tanto é que nem percebi ou me atinei de sustentar o único mosh da noite, feito por um marmanjo de dois metros, cabeludo e no bigode, que saiu de si quando explodiu Glenda and the test tube baby, se impulsionando na caixa de retorno que foi parar lá na frente da batera. Só deu tempo de socorrer o cara, entre os pés da multidão também aérea que entoava em coro a possibilidade do triunfo materno da Glenda.
Às vezes eu olhava pra trás, já que fiquei a maior parte do tempo grudado no palco, e o que via eram rostos em uma felicidade plena e rara. A força do pogo era fraterna; todo o público sorria, um sorriso da satisfação e do saber estar vivendo um momento especial. Punks e headbangers de várias gerações e escolas com os olhos brilhando, de pura fruição e agradecimento, reconhecendo uma banda transparente que faz o que faz porque é completamente aquilo que é. Que cativa qualquer um no primeiro contato. Olga é o cara. E todos que se juntam ao Toy Dolls o fazem porque absorvem o espírito da coisa. Tão ali por puro prazer e identificação. O Opinião inteiro respirou o ar inquestionável de uma "Época de ouro", mesmo que ela possa nem existir. Mas estava lá.
Os primeiros minutos e horas do dia 24 de setembro de 2010 estão em minha antologia existencial. Tudo por uma banda que sempre toca na veia, seja do rock, do sarcasmo, da função da música ou de qualquer bagagem pessoal.


(foto por Bruno Fogaça)

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