sábado, 1 de maio de 2010

Lanche feliz

É um negãozinho bom. Mas se tu falasse pra festear, se atirava. Tá de pintor do Alésio. Pegou a caminhonete pra praia no feriado agora, só volta domingo. Ofereceu pro guri ir junto. Falou que não, que não sei o quê, mas bem capaz, torto que é. Praia, e de carro ainda! Se fez um pouquinho e foi. Tá lá agora.
Bem que gostaria de estar lá também, quenem o guri, mas Jonas viaja sempre assim, parece que por nada. Ao mesmo tempo que considera uma hora e meia valendo cinco, se dá conta do porquê. Viagem sem muita finalidade continua depois que desembarca. As cinco horas que sente no banco azul são as cinco que vai passar fora do ônibus, depois. E mais ainda, se começar a pensar na merda que é o destino. Mal e mal pra dormir. Diz que não dá pra viver mais assim, e imagino vagamente o que é isso.
Saí do ônibus e fui direto pro shopping, já que o tempo até o filme dava certinho pra comer.
São várias hipóteses do que podia estar acontecendo. Uma delas, como todas as outras, partia do pessoal da lanchonete - e partiam do total repouso, não poderiam deixar de ser conscientes. Tavam querendo desconstruir o conceito fast-food. Colocavam o dedo na indústria, como no rabo de um rato que deseja andar e então derrapa, as mãos dum homem na técnica doutro e velho homem. Essa é a melhor das hipóteses de sua intenção, visto que a mais estética, diria-se ensaística. Penso que a pior e, naturalmente, mais do real, é a próxima.
Ouvi um taxista dizer que comer lá é "estar bem". Não é algo para o dia a dia num sentido financeiro, diferente do nosso "não serve para dieta saudável".
Presenciei rebelião simbólica na rede. É fugidio o marco inicial - talvez desencadeou-se logo no primeiro mês da primeira lanchonete. De qualquer forma, penso agora como não me flagrei antes. O lugar é o fruto ilustrativo da riqueza. Os empregados que entram lá, se não o sabiam antes, sabem quando admitidos. E vão melhor interiorizando ao atender. As meninas mais arrumadas e cheirosas, as roupas, as botas, até quando usam aparelho parecem sorrir um aparelho melhor que o de qualquer atendente colega. Do outro lado do balcão, onde há fila, tudo é do melhor.
Francine se assustou um pouco ao ver pela primeira vez o Eduardo no óleo. Ia passando para checar os pacotes, quando achou barulhenta demais a fritura. Perguntou pro colega se havia algo de errado, querendo também fazer amizade. Ele se virou ainda rindo, já que ria antes. Aproveitando a expressão confusa da moça, puxou forte mas soltou de mansinho o catarro. O óleo novamente chiou alto. Francine por um bom tempo odiou o Eduardo. Outra vez, quando ela ia fechando a embalagem, o rapaz interrompeu. Sempre devagar nessas, passou a mão no interior do hambúrguer. "Dá esse pro playboy ali", disse fechando o zíper da calça. Aí é de quando ele já a fazia rir.
As gurias desenvolvem de uma forma diferente, a qual me fez pensar na referida desconstrução do fast-food. Basicamente, elas atendem mal. Fazem esperar. Anotam errado no computador. Tudo na clássica "brincadeira da iniciante". A que fica na frente do monitor se faz de recém-contratada, encenando insegurança ao operar. Solicitará orientação à parceira mais atarefada no interior, que muitas vezes encena igualmente sobrecarga de trabalho dando voltas pela cozinha. Virá ajudar com pressa, largando a "iniciante" ainda desamparada. Até que a impaciência do cliente aflore. "Que bagunça isso" fala um ao virar com a bandeja. Aí elas se olham.
Francine gosta de se fazer de boba. Que não ouve direito, mas de um jeito diferente. Só ela sabe que imita as próprias meninas da fila. Seu olhar de peixe morto ante um pedido é de se pagar pra ver. As patricinhas nem se dão conta. Putinhas.
Não há ofensas. Não existem armas contra. Se um chamar de "incompetente", eles terão a confirmação do sucesso. Conhecem fundamentalmente que não se trata de um estabelecimento onde o mau atendimento compromete. Lá, naquele lado do balcão, eles portam e embalam o lanche feliz.

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