Terça-feira, 16 de Junho de 2009

Peach blush

O rubor alcaline do pêssego, puntualismo da graciosidade, sorriso aquecido, e é assim que se desenham os melhores sorrisos - num alastramento sutil de seu calor. Um par para o algodão do pijama, complemento para as cores da manta, a pele de moleton que atrai para o abraço, assim, nada oleoso, nenhum reflexo de luminosidade, como é o caso de outras cascas de conteúdo ácido e naturalmente para faces de reprovação, frutos forçados. O melhor rubor não está em peles oleosas, essas que o alastram numa timidez sem delicadeza, uma timidez que eu até diria ter algo de viril, e se não for isso, algo de sem encanto de curvas, não me agradam penhascos para meus olhos, ou mais texturas - agradam-me cheiros. O rubor alcaline do pêssego é o que eu amo.

Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

Da universalidade

Na divisão do homem entre o universal e o específico, a parte linear do assunto incita, mesmo no mais radical adepto do instavél e extinguível. Desde os gregos, a heróica eternidade... Nos ultra-românticos, a "bela morte"... Num eixo, o infinito; n'outro o compartilhado por todos.
Exemplo de universalidade são os ruídos sutis que a mulher faz durante o sexo. Não importa seu timbre de voz - todo gemido de uma rapariga excitada é algo padrão da espécie. Claro, de preferência tomemos os sons quando de boca fechada e em início de excitação, pois num estado mais excedido o timbre de voz se destaca, levando à especificidade. Uma namorada, prostituta ou a mais profissional atriz pornô: não há diferença. Todas se repetem nos primeiros sons de regozijos clitorianos, tímidas ou desinibidas. Penso que seria aquela puntual lubrificação inicial. O gozo do primeiro nível atingido, a segurança da umidade; depois disso, é quase certo que tudo fluirá melhor, como o estágio rapid eye movement do sono: chegando ele, estamos encaminhados. Igual misto de júbilo e satisfação nervosa de se perder, tanto para as sexualmente ativas quanto para as virgens ou frígidas. O que varia é o tempo desse estágio para cada uma. Ali onde as putas sentem-se virgens; lá onde as virgens animam-se com o horizonte de puta se desenhando... Um belo momento de universalidade feminina, núcleo da eterna afirmação que todas são iguais.

Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

Da estética do sono

Falta no efeito de cinema
Ineficaz realismo de poeta
É ilustrar a pálpebra se deixando
Veneziana em bocejos
Para o cair do sono
Ao ver do que nele cai.

Não há olhos semicerrados indo ao sonho
Nem pôr-de-olhar
Nem ver estreito
Nem cílios venerando...

Pois antes de todo processo
Em sonho ele já vem.

Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

Tráfego de outono

O semáforo - um arco-íris em semi-arco
poste e parafuso
caixa de um par de primárias
uma secundária
o plano de fundo - tersol do horizonte

Atenção por um olhar doente;
Pare e Siga a favor da noite

Segunda-feira, 6 de Abril de 2009

Fundamental

O Ensino Público não muda seus cheiros. A quina do concreto que separa as cabines de privacidade no banheiro têm a sua falha que lembra uma cozinheira gorda executando um passo de ballet, a falta do papel higiênico, os pêlos pubianos fixados pelo muco de alunos vestidos com roupas que vinham já passando adiante, roupas que duram gerações, de temas e bordados de época, professores que se sensibilizam e vêm à escola com blusas manchadas e jóias baratas, e dentes maltratados, o batom no cigarro na sala de reuniões que provoca temor e cortinas, a elegância dos tutores que já no ponto de ônibus seriam nada elegantes, pessoas que seguram sacolas, o giz esquecido nos seus dedos, as professoras de pés róseos, esmalte na unha vermelha, e o que impera é que se sensibilizam, que poderiam estar ali nus, já que a sensibilidade coletiva jamais permitirá elegância, a não ser que se faça doações, o recreio e os suores urinados, a grama esquecida nos cabelos duros, até o ponto de ônibus, até em casa a grama nos travesseiros, as picadas de mosquito coçadas por tiras de chinelas, o calor, a desatenção, a falta de escolha, as tentativas... Desde a minha Pré-Escola, os cheiros não mudaram.

Quarta-feira, 1 de Abril de 2009

Luar

Suas ruas
Ruas tuas?

Mas é meu caminho
O suar ruas!

São ruas
E não as suas

Quarta-feira, 4 de Março de 2009

Maki Filadélfia

(para Lica)


Piki piki chegou o sushi diz
Piki piki Lica piki
E os pés piki piki fazem piki
No carpete até a porta
Só piki
Mas chegaram makis, uramakis, niguiris
Então piki niguiris piki makis
Uramakis nigui pikis uraniguis
E os pés piki piki fazem piki
Até a mesa
E silenciam.

Serve-se o silêncio dos sushis
Servem-se fatias de arroz
Um Filadélfia escutemos
Este o primeiro que ela quis:

O som é todo muito cru
Sem crocante no salmão
Salmão, salmão, nome de grito
Quieto parece mais bonito

Wasabi raiz forte cria vida
Salmão vira língua e língua salmão
Existe um oceano escuro de shoyo
É onde todos naufragarão

Ah, se não fosse o cream cheese!
Surdas notas de laticínio
Casa e morre com o sushi
Pois o silêncio é o fascínio

A cebolinha até faz ruído
Resmunga um pouco, maki maki
Um pé escuta e faz um piki
E a Lica acha divertido.