segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Batatas recheadas

- Fico pensando... Será que a natureza sabia sobre o homem?
- Tu devia ir lá falar com a mulher na hora que tu pagou, Augusto. Não adianta ficar reclamando agora. Continua comendo quieto, ou fala sobre outra coisa.
- Não, já deu, tá ótimo o gorgonzola, mesmo que com preço de dois recheios. Tô falando de outra coisa agora.
- Ah. Sobre o quê?
- Se a natureza sabia que o homem viria. Estaria aguardando ele assim... Porque as batatas são muito duras.
- Quê?
- A gente só consegue comer batata quando cozida. Ou frita. Por isso, será que a natureza tem uma consciência temporal? Uma paciência? Porque as batatas talvez sempre estiveram ali, mas só por elas mesmas. E é óbvio que os vegetais não existem por si mesmos, porque fazem bem pro homem e pros animais.
- Sim, então não tavam esperando pelos homens, porque desde sempre os animais consomem vegetais.
- Mas batata? Que animal come batata? E crua.
- Sei lá ué, claro que deve ter. Então os animais tavam esperando o homem pra assar eles no churrasco também.
- Nah, mas animais se comiam crus. Churrasco vem depois. Tá, tudo que é orgânico faz bem pro que é orgânico. Sim, tem vida, a gente pega emprestado, como no Avatar. Mas... a batata só pode ser comida cozida, só assim é digerida por qualquer organismo, os carboidratos são melhores aproveitados. Ela, crua, não serve.
- Acho que não, acho que serve.
- Ela esperava o homem e o fogo agirem sobre ela em conjunto. Ela tava lá. Nenhum selvagem poderia fazer nada. Não é a mesma coisa que um gorila pegar e quebrar uma água de coco pra beber a água. Com fogo, é diferente. Fazer e manejar... Nenhum animal come uma raiz assim dura.
- Claro que come! Deve ter...
- Hm... Tem o coelho, que come cenoura. E é verdade, é meio dura crua.
- Tem beterraba também...
- Bah! Quem come beterraba crua?
- Sei lá! O mesmo que come batata crua...
- Hm. Sei lá. Bem, devia ter.

Menos sol

é maior o céu com nuvens
pois o sol revelado
se faz sentir mais perto.

nuvens são longe,

são várias.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

banda Falsa Valsa: um ponto de partida

A identidade da Falsa Valsa tem sua condição de existência apontada para o ambiente do pós-Punk, isso por seus integrantes terem no passado feito parte de bandas de ambições ou flertes com o som e lirismo daquela contracultura violenta e anarquizante. Hoje estão superarados a adolescência e seus cultuados básicos três acordes, assim como aconteceu com os genuínos representantes do pós-Punk nos meados dos 80´s. Porém, há um resquício daquela atitude mais agressiva do radicalismo Punk, resquício que sem dúvida é sinônimo da essência Rock. Nutrida da disposição de desprendimento roqueiro, a Falsa Valsa busca alternativas outras para criar em seu tempo. No caso, evitar o desplugado e principalmente a gaita de boca.
Se os integrantes da banda abandonaram sua adolescência, também descartam a idéia da influência folk como alternativa para o amadurecimento estético musical. Em meio a um revivalismo dylanesco e, em paralelo, um ar neo-Mod sessentista que impregna a primeira década do século 21, a Falsa Valsa pretende aniquilar qualquer indício de nostalgia de época e "contraculturesca". Parte dos anos 80, entendendo como uma fase de ressaca social, de egoísmo e desprendimento dos ideais coletivos (e não há timbre mais estimulante para a confraternização do que os sopros numa gaita de boca), para ser influenciada por Música de Cabaré (sim, espécie de folk, porém mais para o velho mundo e não canônico), Flamenco, Valsa, Polca, Música Erudita, Jazz, Rock germinal, e claro, pós-Punk. A influência lírica tampouco vem de literaturas que nutriram aqueles movimentos sociais e musicais de que hoje se tem saudade, mas sim de textos realmente pioneiros da essência desprendida e individualista do Rock, localizados no século XIX e primeira metade do século XX.
Lirismo e influência sem nostalgia, evidentemente.

Conheça a banda: www.myspace.com/falsavalsa

terça-feira, 16 de junho de 2009

Peach blush

O rubor alcaline do pêssego, puntualismo da graciosidade, sorriso aquecido, e é assim que se desenham os melhores sorrisos - num alastramento sutil de seu calor. Um par para o algodão do pijama, complemento para as cores da manta, a pele de moleton que atrai para o abraço, assim, nada oleoso, nenhum reflexo de luminosidade, como é o caso de outras cascas de conteúdo ácido e naturalmente para faces de reprovação, frutos forçados. O melhor rubor não está em peles oleosas, essas que o alastram numa timidez sem delicadeza, uma timidez que eu até diria ter algo de viril, e se não for isso, algo de sem encanto de curvas, não me agradam penhascos para meus olhos, ou mais texturas - agradam-me cheiros. O rubor alcaline do pêssego é o que eu amo.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Da universalidade

Na divisão do homem entre o universal e o específico, a parte linear do assunto incita, mesmo no mais radical adepto do instavél e extinguível. Desde os gregos, a heróica eternidade... Nos ultra-românticos, a "bela morte"... Num eixo, o infinito; n'outro o compartilhado por todos.
Exemplo de universalidade são os ruídos sutis que a mulher faz durante o sexo. Não importa seu timbre de voz - todo gemido de uma rapariga excitada é algo padrão da espécie. Claro, de preferência tomemos os sons quando de boca fechada e em início de excitação, pois num estado mais excedido o timbre de voz se destaca, levando à especificidade. Uma namorada, prostituta ou a mais profissional atriz pornô: não há diferença. Todas se repetem nos primeiros sons de regozijos clitorianos, tímidas ou desinibidas. Penso que seria aquela puntual lubrificação inicial. O gozo do primeiro nível atingido, a segurança da umidade; depois disso, é quase certo que tudo fluirá melhor, como o estágio rapid eye movement do sono: chegando ele, estamos encaminhados. Igual misto de júbilo e satisfação nervosa de se perder, tanto para as sexualmente ativas quanto para as virgens ou frígidas. O que varia é o tempo desse estágio para cada uma. Ali onde as putas sentem-se virgens; lá onde as virgens animam-se com o horizonte de puta se desenhando... Um belo momento de universalidade feminina, núcleo da eterna afirmação que todas são iguais.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Da estética do sono

Falta no efeito de cinema
Ineficaz realismo de poeta
É ilustrar a pálpebra se deixando
Veneziana em bocejos
Para o cair do sono
Ao ver do que nele cai.

Não há olhos semicerrados indo ao sonho
Nem pôr-de-olhar
Nem ver estreito
Nem cílios venerando...

Pois antes de todo processo
Em sonho ele já vem.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Tráfego de outono

O semáforo - um arco-íris em semi-arco
poste e parafuso
caixa de um par de primárias
uma secundária
o plano de fundo - tersol do horizonte

Atenção por um olhar doente;
Pare e Siga a favor da noite