terça-feira, 10 de janeiro de 2012
A mão da mulher
O que mais me inquieta na mão de uma mulher é que a mão é uma das partes mais sensíveis e inofensivas da mulher. Disso tudo farei um porém logo à frente; ainda sublinho que a mão da mulher sempre será totalmente envolvida pela mão de um homem, ela pode sim vir com tapinhas urticantes, mas é a mão de mulher. Será sempre covardia de um homem enfrentar a mão de uma mulher. Eis o porém: esta mesma mão, pequena mão, artefato, material, uma das extremidades do feminino com seus anéis, brilhantes e vaidades de menina, essa pequena inofensiva, é capaz das maiores tormentas em um homem, principalmente quando em lembrança. Lembrar da mão ausente de uma mulher é o tapinha urticante no braço elevado a milhares de potências. Aquela coisa pequena, aquele cheiro de todos os perfumes nos dedos e o maldito esmalte colorido que tem a intenção de ser unicamente alegria e pequena vaidade, é o pior golpe na lembrança de um homem que não protege a mão de uma mulher. A mão é onde ela é mais carente. É por onde ela mais reclama em seus picos hormonais, é de onde ela dará a mão dada. É por onde existe o maior gesto de amor e entrega. E é de onde ela pode nem mais se despedir, nem mais considerar. É de onde ela pode ser apenas a mão feliz que deseja ser bonita, e que jamais terá necessidade de uma específica maior mão dada a ela.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Lajeadenses - "Da tradição e imortalidade"
« Statistiquement, le mythe est à droite. Là, il est essentiel : bien nourri, luisant, expansif, bavard. »
Roland Barthes
« Est-ce qu’au fond, ce qui fait peur, dans la doctrine que je vais essayer de vous exposer, ce n’est pas le fait qu’elle laisse une possibilité de choix à l’homme ? »
Jean-Paul Sartre
Victor acordou com a fumaça de churrasco. Sonhava já com a picanha bem passada e a farofa. Também dançava no sonho, e logo que retomou os sentidos pensou no quão sem tradição era o misto de dança e degustação que sua mente fazia. O pai acabara de sintonizar a rádio, lá no carro sob a sombra das árvores do quintal. O churrasco de domingo estava com todos os signos em andamento.
Victor era alguém, era de tradição.
A lição vinha de longe. Do bisavô pobre até seu pai, pouca coisa mudara. O velho sempre dizia que não tivera escolha, que a vida é amarga e que tudo só pode ser realizado com muito trabalho. Victor jamais esqueceria: um homem deve ter honra, e a única forma de a alcançar é através de mãos calejadas e muito suor. Essa era a verdadeira natureza do homem. O pai repetia o discurso a cada churrasco, e jamais se esgotava a lágrima no momento da metáfora do guerreiro. Sua realização de vida consistia na tranquilidade em poder empregar para cada membro da família a qualidade de guerreiro. “O meu filho é um guerreiro” ; “Minha esposa é uma guerreira” ; “Meu irmão, guerreiro”. Assim também era quando todos, em frente à televisão, reconheciam outros guerreiros espalhados pelo mundo.
Victor era alguém, era de tradição.
Jamais lhe deixava a lembrança os primeiros jogos do Grêmio que vira ao lado do pai. Gritava sem entender muito bem o que acontecia, só sabia que gol tinha relação com felicidade e rodopios na frente da televisão. Seu velho o pegava pelos braços e ambos acabavam tontos de tanto comemorar. No decorrer do tempo, foi concebendo os valores. Assim, sempre fora apaixonado pelo tricolor. O azul, o branco, o preto, aquela camisa que tanto pesava, assim como a palavra tradição. Grêmio. Bombacha. Churrasco. Chimarrão. Honra. Trabalho. Tradição. Guerreiro.
Victor era alguém, era de tradição.
Antes daquele domingo já vivera a emoção do primeiro emprego, da primeira carteira assinada. O sorriso da Universidade, o aperto de mão para os negócios. Tinha seu próprio carro e sua bela namorada, que nos churrascos com amigos ficavam sob a sombra junto das amigas em cadeiras de praia, os pares de pernas depiladas e cruzadas na mesma direção, variando as cores das sandálias, preparando a salada. Sua mãe, nos churrascos de família, repetia a organização ao lado das tias e do carro.
Victor era alguém, era de tradição.
Só não compreendia uma coisa na vida: como era possível ser colorado? Não lhe fazia mesmo sentido. Sport Club Internacional, um time sem tradição, sem identidade, que mal havia conquistado títulos importantes. Victor não deixava de considerar os fatos de 2006 e 2010 como “o fim do mundo, a ordem natural das coisas alterada”. Colorados eram uma torcida sem unidade, sem relação alguma com as tradições de seu Estado, e que vivia imitando seu time. A famosa macacada. Cada vez que via um grupo de colorados, imaginava-os pulando e gritando sem entenderem quem eram, sem entenderem o real amor por um time. Mesmo quando o Grêmio caíra para a série B do Campeonato Brasileiro, a tradição manteve-se forte. Sendo gremista, jamais alguém poderia estar aflito.
Victor era alguém, era de tradição.
Aquele domingo era dia de Gre-Nal. Victor foi acompanhar o jogo num bar logicamente repleto de gremistas. Porém, seu time veio a ser derrotado. Ouviam-se discretos foguetes pelos céus de Lajeado, que os gremistas facilmente amorteceram. A macacada fazia festa, mas a tradicional torcida imortal não se deixou intimidar e gritou mais alto. Eis que, em determinado momento, um colorado que passava sorridente pela rua com sua bandeira se deteve em frente ao bar. Permaneceu um tempo em silêncio, acompanhando a intensificação dos cantos gremistas com sua presença. Viam que desejava falar algo, mas não consideraram escutar. Então o colorado sacou um guardanapo e, gesticulando, pediu um lápis para o dono do bar. Victor estava na mesa logo perto da entrada e chamou o rival. Queria ler o bilhete. De imediato, fez-se silêncio. Victor leu em voz alta:
Ser Colorado é realmente não temer, pois questiona-se o mito.
O silêncio seguiu por um instante. E todos riram efusivamente, a gargalhada fez-se uníssona, estridente, tão intensa quanto as canções entoadas anteriormente. A excentricidade do colorado acabara por o ridicularizar em um ambiente tão discrepante. “Ninguém entende nada! Ninguém entende nada que a macacada fala! Ninguém entende como alguém pode ser colorado!”, gritou Victor, já eleito como o líder do bar. Seguiram-no em gargalhadas novamente, inclusive o dono do estabelecimento, que até então operava o caixa de sorriso contido. Nenhuma pessoa ali pôde escutar, mas o colorado ainda falou em voz baixa: “Eis a diferença. Nós entendemos por que um gremista é gremista”, e foi embora sorrindo, satisfeito com a vitória do dia.
Até horas mais tarde, os gremistas continuaram firmes em seu bar, compartilhando a certeza de serem alguém, de serem de tradição.
Roland Barthes
« Est-ce qu’au fond, ce qui fait peur, dans la doctrine que je vais essayer de vous exposer, ce n’est pas le fait qu’elle laisse une possibilité de choix à l’homme ? »
Jean-Paul Sartre
Victor acordou com a fumaça de churrasco. Sonhava já com a picanha bem passada e a farofa. Também dançava no sonho, e logo que retomou os sentidos pensou no quão sem tradição era o misto de dança e degustação que sua mente fazia. O pai acabara de sintonizar a rádio, lá no carro sob a sombra das árvores do quintal. O churrasco de domingo estava com todos os signos em andamento.
Victor era alguém, era de tradição.
A lição vinha de longe. Do bisavô pobre até seu pai, pouca coisa mudara. O velho sempre dizia que não tivera escolha, que a vida é amarga e que tudo só pode ser realizado com muito trabalho. Victor jamais esqueceria: um homem deve ter honra, e a única forma de a alcançar é através de mãos calejadas e muito suor. Essa era a verdadeira natureza do homem. O pai repetia o discurso a cada churrasco, e jamais se esgotava a lágrima no momento da metáfora do guerreiro. Sua realização de vida consistia na tranquilidade em poder empregar para cada membro da família a qualidade de guerreiro. “O meu filho é um guerreiro” ; “Minha esposa é uma guerreira” ; “Meu irmão, guerreiro”. Assim também era quando todos, em frente à televisão, reconheciam outros guerreiros espalhados pelo mundo.
Victor era alguém, era de tradição.
Jamais lhe deixava a lembrança os primeiros jogos do Grêmio que vira ao lado do pai. Gritava sem entender muito bem o que acontecia, só sabia que gol tinha relação com felicidade e rodopios na frente da televisão. Seu velho o pegava pelos braços e ambos acabavam tontos de tanto comemorar. No decorrer do tempo, foi concebendo os valores. Assim, sempre fora apaixonado pelo tricolor. O azul, o branco, o preto, aquela camisa que tanto pesava, assim como a palavra tradição. Grêmio. Bombacha. Churrasco. Chimarrão. Honra. Trabalho. Tradição. Guerreiro.
Victor era alguém, era de tradição.
Antes daquele domingo já vivera a emoção do primeiro emprego, da primeira carteira assinada. O sorriso da Universidade, o aperto de mão para os negócios. Tinha seu próprio carro e sua bela namorada, que nos churrascos com amigos ficavam sob a sombra junto das amigas em cadeiras de praia, os pares de pernas depiladas e cruzadas na mesma direção, variando as cores das sandálias, preparando a salada. Sua mãe, nos churrascos de família, repetia a organização ao lado das tias e do carro.
Victor era alguém, era de tradição.
Só não compreendia uma coisa na vida: como era possível ser colorado? Não lhe fazia mesmo sentido. Sport Club Internacional, um time sem tradição, sem identidade, que mal havia conquistado títulos importantes. Victor não deixava de considerar os fatos de 2006 e 2010 como “o fim do mundo, a ordem natural das coisas alterada”. Colorados eram uma torcida sem unidade, sem relação alguma com as tradições de seu Estado, e que vivia imitando seu time. A famosa macacada. Cada vez que via um grupo de colorados, imaginava-os pulando e gritando sem entenderem quem eram, sem entenderem o real amor por um time. Mesmo quando o Grêmio caíra para a série B do Campeonato Brasileiro, a tradição manteve-se forte. Sendo gremista, jamais alguém poderia estar aflito.
Victor era alguém, era de tradição.
Aquele domingo era dia de Gre-Nal. Victor foi acompanhar o jogo num bar logicamente repleto de gremistas. Porém, seu time veio a ser derrotado. Ouviam-se discretos foguetes pelos céus de Lajeado, que os gremistas facilmente amorteceram. A macacada fazia festa, mas a tradicional torcida imortal não se deixou intimidar e gritou mais alto. Eis que, em determinado momento, um colorado que passava sorridente pela rua com sua bandeira se deteve em frente ao bar. Permaneceu um tempo em silêncio, acompanhando a intensificação dos cantos gremistas com sua presença. Viam que desejava falar algo, mas não consideraram escutar. Então o colorado sacou um guardanapo e, gesticulando, pediu um lápis para o dono do bar. Victor estava na mesa logo perto da entrada e chamou o rival. Queria ler o bilhete. De imediato, fez-se silêncio. Victor leu em voz alta:
Ser Colorado é realmente não temer, pois questiona-se o mito.
O silêncio seguiu por um instante. E todos riram efusivamente, a gargalhada fez-se uníssona, estridente, tão intensa quanto as canções entoadas anteriormente. A excentricidade do colorado acabara por o ridicularizar em um ambiente tão discrepante. “Ninguém entende nada! Ninguém entende nada que a macacada fala! Ninguém entende como alguém pode ser colorado!”, gritou Victor, já eleito como o líder do bar. Seguiram-no em gargalhadas novamente, inclusive o dono do estabelecimento, que até então operava o caixa de sorriso contido. Nenhuma pessoa ali pôde escutar, mas o colorado ainda falou em voz baixa: “Eis a diferença. Nós entendemos por que um gremista é gremista”, e foi embora sorrindo, satisfeito com a vitória do dia.
Até horas mais tarde, os gremistas continuaram firmes em seu bar, compartilhando a certeza de serem alguém, de serem de tradição.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Lajeadenses - "Moleton amarelo no recreio"
Não lembro de quando comecei a gostar dela, mas só sei que ela ia de moleton amarelo no recreio, quando ainda não era minha colega. Ela era da escola, e não de outra, como se fosse a cara da escola. Eu sabia que essa escola tinha ela, e a outra não. Ela mais umas três gurias mais grandes fazem a cara da escola, e os guri grande também, do futebol e da banda. Juntos fazem mais a cara da escola do que as freiras que tem lá. Tá, eu já tinha visto ela bem antes do recreio... Na rua, eu sabia que ela era dessa escola, e acabei entrando lá - por sorte. Minha mãe que me botou. Foi a primeira vez que eu não tive vontade de chorar. Ela e o moleton amarelo no recreio. Nem precisa ficar triste.
Ninguém mais acha ela bonita. Tá, tem o Djan, que gosta de coxas, de qualquer guria que vem de bermuda. Ela tem umas coxas bem bonitas, eu já passei a mão nela uma vez que fomos numa viagem pra Imbé, ver os peixes e os tanques do exército. A gente tava saindo do ônibus, no corredor, ela me olhou e eu deixei ela levantar do banco e ir na frente. Os guri começaram a empurrar atrás e daí todo mundo se bateu na frente. Aí eu passei a mão na coxa dela, meio que ajudando. Ela riu com os dentes de aparelho, deu aqueles gritinhos, eu não sei se ela gritou porque quase caía e se espremia, ou se notou eu passando a mão assim. Porque eu quis deixar como se fosse sem querer. Primeiro eu passei atrás da minha mão assim, daí depois eu virei porque era muito bom. E com o cheiro dela, eu fiquei bem perto do cabelo dela, ela tem um cheiro de armário bom, eu imaginei que a casa dela deve ser assim, o cobertor dela, deve ser tudo amarelo no quarto. Daí quando eu encostei a outra mão nas costas dela pra cuidar, deu pra sentir o grito dela tremendo como se fosse uma caixa de som, ela virada pra frente rindo com as outras gurias, e virava meio de lado com cara de sofrimento rindo. O cabelo dela caía, as costas tremendo, daí eu vi como ela é fraca e leve, foi muito bom, deu uma vontade de apertar a coxa, e esfregar a mão. O Djan só olha pras coxas, e fica pegando no tico pra provocar as gurias. Eu tive vontade de encostar o tico nela, mas tive mais vontade ainda de abraçar, tudo junto assim, me deu calor, fiquei vermelho, só cheirando o cheiro dela, e tudo tão calor. A gente nem se conhecia direito.
Não sei se foi o moleton amarelo nos recreios. Eu acho bonito, mas ela com o cabelão reto assim, fica andando com aquele jeito e tirando ele da cara. Esses dias eu vi ela na calçada, eu tava no ônibus. A mochila dela é legal, tem um monte de chaveiros. Fiquei olhando sem parar, nem fiquei com vergonha se ela visse que eu tava olhando. Olhei quando vi ela lá na frente, até ela passar e sumir atrás da janela. Quando vi que ela era minha colega nesse ano foi muito bom. Eu já queria, parece que é uma coisa que eu rezei, que dá na tv. E eu nem pedi, eu só queria.
Ela joga vôlei meio mal. O Djan acha mais bonita as gurias que jogam bem. Eu nem sei jogar também, não sei se é por isso. É que guria tem que saber jogar vôlei melhor que guri. E ela nem sabe, sempre ri dos saques, mas é muito bom ver ela rindo. O moleton que ela usa às vezes dá pra ver as tetas. O Djan diz que ela não tem nada, mas eu acho que ela tem, eu fico no recreio olhando ela sentada. Quando ela se deita pra trás não tem teta, mas se tá comendo mais pra frente dá pra ver. Esses dias eu dei meu sanduíche inteiro pra ela. Pelo menos a gente ficou conversando um monte, falando de bicicleta. A Maína já veio dizendo que eu gostava dela, dar toda merenda pra alguém. Ficou gozando um pouco, mas eu gostei. Ela nem deu muita bola, ficou rindo, e fez aquela cara de abobada tipo pra Maína, que a Maína tava sendo a abobada, e nem deu muita bola, continuou conversando comigo. Eu pensava que eu nem ia conseguir falar, mas me deu muita vontade na hora, foi muito bom. Eu queria o sanduíche, mas quando ela disse que tava com muita fome e esqueceu a merenda, eu dei o sanduíche. Logo quando ela quis eu perdi a fome, veio aquele gosto doce na barriga. Daí ela comia e eu falava mais, e ela ria e limpava a boca, e ficava fechando os olhos porque o sol tava muito forte. Daí eu vi que o pão grudava um pouco no aparelho, mas nem dava nojo. Parece que ela não tem bafo. Ela fala bem pertinho de mim e se mistura o cheiro dela de armário bom com um cheiro de boca, mas é um cheiro bom. Eu tomo no copo dela se ela oferecer.
Ninguém mais acha ela bonita. Tá, tem o Djan, que gosta de coxas, de qualquer guria que vem de bermuda. Ela tem umas coxas bem bonitas, eu já passei a mão nela uma vez que fomos numa viagem pra Imbé, ver os peixes e os tanques do exército. A gente tava saindo do ônibus, no corredor, ela me olhou e eu deixei ela levantar do banco e ir na frente. Os guri começaram a empurrar atrás e daí todo mundo se bateu na frente. Aí eu passei a mão na coxa dela, meio que ajudando. Ela riu com os dentes de aparelho, deu aqueles gritinhos, eu não sei se ela gritou porque quase caía e se espremia, ou se notou eu passando a mão assim. Porque eu quis deixar como se fosse sem querer. Primeiro eu passei atrás da minha mão assim, daí depois eu virei porque era muito bom. E com o cheiro dela, eu fiquei bem perto do cabelo dela, ela tem um cheiro de armário bom, eu imaginei que a casa dela deve ser assim, o cobertor dela, deve ser tudo amarelo no quarto. Daí quando eu encostei a outra mão nas costas dela pra cuidar, deu pra sentir o grito dela tremendo como se fosse uma caixa de som, ela virada pra frente rindo com as outras gurias, e virava meio de lado com cara de sofrimento rindo. O cabelo dela caía, as costas tremendo, daí eu vi como ela é fraca e leve, foi muito bom, deu uma vontade de apertar a coxa, e esfregar a mão. O Djan só olha pras coxas, e fica pegando no tico pra provocar as gurias. Eu tive vontade de encostar o tico nela, mas tive mais vontade ainda de abraçar, tudo junto assim, me deu calor, fiquei vermelho, só cheirando o cheiro dela, e tudo tão calor. A gente nem se conhecia direito.
Não sei se foi o moleton amarelo nos recreios. Eu acho bonito, mas ela com o cabelão reto assim, fica andando com aquele jeito e tirando ele da cara. Esses dias eu vi ela na calçada, eu tava no ônibus. A mochila dela é legal, tem um monte de chaveiros. Fiquei olhando sem parar, nem fiquei com vergonha se ela visse que eu tava olhando. Olhei quando vi ela lá na frente, até ela passar e sumir atrás da janela. Quando vi que ela era minha colega nesse ano foi muito bom. Eu já queria, parece que é uma coisa que eu rezei, que dá na tv. E eu nem pedi, eu só queria.
Ela joga vôlei meio mal. O Djan acha mais bonita as gurias que jogam bem. Eu nem sei jogar também, não sei se é por isso. É que guria tem que saber jogar vôlei melhor que guri. E ela nem sabe, sempre ri dos saques, mas é muito bom ver ela rindo. O moleton que ela usa às vezes dá pra ver as tetas. O Djan diz que ela não tem nada, mas eu acho que ela tem, eu fico no recreio olhando ela sentada. Quando ela se deita pra trás não tem teta, mas se tá comendo mais pra frente dá pra ver. Esses dias eu dei meu sanduíche inteiro pra ela. Pelo menos a gente ficou conversando um monte, falando de bicicleta. A Maína já veio dizendo que eu gostava dela, dar toda merenda pra alguém. Ficou gozando um pouco, mas eu gostei. Ela nem deu muita bola, ficou rindo, e fez aquela cara de abobada tipo pra Maína, que a Maína tava sendo a abobada, e nem deu muita bola, continuou conversando comigo. Eu pensava que eu nem ia conseguir falar, mas me deu muita vontade na hora, foi muito bom. Eu queria o sanduíche, mas quando ela disse que tava com muita fome e esqueceu a merenda, eu dei o sanduíche. Logo quando ela quis eu perdi a fome, veio aquele gosto doce na barriga. Daí ela comia e eu falava mais, e ela ria e limpava a boca, e ficava fechando os olhos porque o sol tava muito forte. Daí eu vi que o pão grudava um pouco no aparelho, mas nem dava nojo. Parece que ela não tem bafo. Ela fala bem pertinho de mim e se mistura o cheiro dela de armário bom com um cheiro de boca, mas é um cheiro bom. Eu tomo no copo dela se ela oferecer.
sábado, 7 de maio de 2011
uma carta
eu te amaria
através do perfume, só
mas houve mais gente
bolsas e sacolas
e cremes e suores
e suores em cremes
que
teu perfume não venceu.
eu te amaria
através do esmalte, só
mas houve o cheiro
do legume, do fogão
do fósforo riscando
e teu dente
que
babou e roeu.
eu te amaria
através do cílio, só
mas houve a manhã
a foto do vizinho
e um abismo
do sem rímel
que
teu olho deu.
eu te amaria
através do texto, só
mas houve o sexo
o hálito
o beijo
o amor
que
alguém já escreveu.
através do perfume, só
mas houve mais gente
bolsas e sacolas
e cremes e suores
e suores em cremes
que
teu perfume não venceu.
eu te amaria
através do esmalte, só
mas houve o cheiro
do legume, do fogão
do fósforo riscando
e teu dente
que
babou e roeu.
eu te amaria
através do cílio, só
mas houve a manhã
a foto do vizinho
e um abismo
do sem rímel
que
teu olho deu.
eu te amaria
através do texto, só
mas houve o sexo
o hálito
o beijo
o amor
que
alguém já escreveu.
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Motorista & ônibus
São exatamente motorista & ônibus que trazem para o lar, para o que chamam de rotina e compromisso, e canos de descarga. É como o café sendo feito, o pão no forno, mas da cidade e do dia que passa, e dos passantes - um dia foram os bondes. A identificação com o motorista é de quem lê livro ruim, mesmo em pós-estruturalismo, mas o livro é ruim e de texto bom, existe o inesperado entre cobrador e motorista, e muito mais ainda no suor operário à orelha aprontada. Familiaridade. É a diferença a familiaridade, é a cidade, amor pelo motorista sem escrúpulos estético-existenciais. É o amor do café passando e do pão no forno, assim deve ser, assim deve acelerar, a imposição do veículo transportando público em design de século XX, motor e fumaça, ruído, Modernismo sucateado sob mãos e mãos de pinturas e painéis de led. O amor pelo motorista & ônibus se cria entre espaços válidos, a viajem não é nada, é a perda de tempo, e é o espaço dele, do motorista é o compromisso. O futuro, o céu, o espaço, o Caos, o devaneio, a morte, o Nada, chame todos e jogue sob pneus na via do ônibus, entre o diálogo motorista e cobrador. E o humano voltará com sentido.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
cale-se
que "não há palavras" que expressem
um sentimento
é minimalismo,
é sentimento
fácil.
pois há
muito mais
e ainda
mais de fato
e ainda
mais
palavras
que sentimentos!
os sentimentos acabaram;
são de todos conhecidos.
e se não há palavras que os expressem
instrua-se, animal que sente.
um sentimento
é minimalismo,
é sentimento
fácil.
pois há
muito mais
e ainda
mais de fato
e ainda
mais
palavras
que sentimentos!
os sentimentos acabaram;
são de todos conhecidos.
e se não há palavras que os expressem
instrua-se, animal que sente.
segunda-feira, 28 de março de 2011
Nigella e a panela
na banheira
sais e salmão
o banho das algas
Nigella e a panela
pés descalços no ar
lamber a colher
uma só mulher que
salga e ama
chupa, Nigella
o diretor
da fotografia
Nigella chupa, depois
o camera man
mulher contemporânea
independente
mente;
unicamente:
porrânea!
Nigella e a panela
sais e salmão
o banho das algas
Nigella e a panela
pés descalços no ar
lamber a colher
uma só mulher que
salga e ama
chupa, Nigella
o diretor
da fotografia
Nigella chupa, depois
o camera man
mulher contemporânea
independente
mente;
unicamente:
porrânea!
Nigella e a panela
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